No Olho do Furacão

Ervas Daninhas: eu, tu, eles

Posted in 1 by franvogner on 29/12/2009

Ao sair da sessão de Ervas Daninhas, de Alain Resnais meu irmão disse “esses são os personagens mais reais que eu já vi”.

Pois é. A afirmação simples não tem implicações simples.

Durante o filme é fácil deduzir que cara é um psicopata enrustido. Em várias cenas ele tem atitudes e desejos bem estranhos que no conjunto, são contraditórios. Há a cena em que passam duas garotas na sua frente . Ele pensa que as duas deveriam pagar pelo mau gosto que têm e que elas merecem uma lição. Em outro momento, esse mesmo homem demonstra acentuado receio da polícia; mais a frente, rasga os pneus do carro da mulherpela qual se apaixona, apesar de só conhecê-la pelos documentos da carteira dela que encontrou jogada em um estacionamento.

Tudo é inconstante e parece que estamos condicionados a acreditar que sequência que se segue trará um desenlace do conflito sublinhado na anterior. É aquele automatismo de pensar que tudo naturalmente existe para desembocar em fins conciliatórios. São regras que o cinema nos acostumou: um mundo paralelo com leis próprias. O problema é, sempre, usar o cinema (algumas regras já cristalizadas no nosso imaginário) como mediação para nos relacionarmos com tudo em um filme. Existe aqui um “Fin” antes do “Fin” que encerra um conflito. Mas como o conflito não é sinônimo de filme, a projeção termina mais adiante.

Os personagens são próximos de nós, e apesar de verdadeiros não são reais. São de um filme. Está lá a música da Fox e algumas das elipses mais bonitas de todos os tempos. É o cinema que não rivaliza ou se coloca a parte da vida. 2009 acabou.

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Sobre certa crítica

Posted in 1 by franvogner on 28/12/2009

O Bruno Andrade escreveu no seu blog alguns comentários sobre a crítica. Acredito que ele fale da crítica em geral, seja a dos Cahiers do Burdeau, seja dos discípulos do Johnatan Rosembaum (e do próprio, já aposentado), seja da Film Comment, e mais especificamente daquela que foi chamada “nova crítica” ou “jovem crítica” aqui no Brasil (as revistas eletrônicas + Paisà), a qual inclusive ele é figura fundamental, querendo  ele ou não, mesmo divergindo das tendências que ele considera majoritárias.

De maneira geral eu até concordo com ele, apesar de achar que ele joga fora a água da bacia com a criança dentro. Na verdade eu até parto dessa percepção dele, mas os desdobramentos (e incômodo) do que vejo, é de outra seara.

É claro que a administração (leia-se burocratização) de um repertório teórico e a demanda formalista de muitos críticos é um impasse que está dado há um tempo. Utiliza-se um conceituário acessório para imprimir valor aos procedimentos e métodos dos cineastas nos filmes. Categorias como “corpo”, “espaço”, “trabalho com o tempo”, “mise-en-scène”, ou procedimentos críticos que apontem que essa parte do filme “deu errado” e aquele outra está “eficiente”.  Às vezes a coisa é salpicada com termos sofisticados como “pulsão escópica” ou especializados como “cadenciamento narrativo”.

Não é só a crítica especializada (pra usar uma classificação que eu ouvi de um idiota nos últimos meses) que hoje chafurda no pântano do conceituário cinematográfico, mas os blogueiros estão indo pelo mesmo caminho. Se eu pudesse denominar essa geração eu a chamaria de cinéfilos das lentes mentais, porque tudo é mediado por lentes conceituais em alguns casos e teóricas em outros. Como a teoria é um campo de trabalho mais árduo (e que muitas vezes não precisa dos filmes – o que é um problema) ela tem ficado mais de lado. Mas os conceitos você aprende em dois parágrafos num artigo dos Cahiers ou num comentário do Alain Bergala em um extra de DVD.

É um fênomeno típico dessa era da Internet. É a criação de um mundo virtual com valores abstratos que não demandam uma relação com a vida, uma visão de mundo, que enfim, localize o filme no mundo, na História e na subjetividade do sujeito e de sua época. É tudo vaporoso, frágil e que não se coloca a prova. Não mexe com valores que não sejam meramente cinematográficos, não provoca nada, no fim das contas não EXISTE. É mera abstração, fruto de um subjetivismo recalcitrante. Se fosse “questão de gosto”, menos ruim. Mas a impressão é que nem tangenciamento de gosto há.

O cinema deixa de ser político e o amor, a morte, a vingança, o ódio se transformam em questões cinematográficas. Pura e simplesmente. Por isso um cineasta como Christophe Honoré se transforma em embaixador dessa fração de geração. O cinema não faz mais parte do mundo, se tornou um mediador dele. A paixão, a guerra, o sexo e o horror são explicados pelo cinema. É o fim da picada.

Por isso cineastas como Alain Resnais, Manoel de Oliveira, Jean-Claude Brisseau, Claude Chabrol, Carlos Reichenbach e James Gray são cineastas adultos.  Há o abismo, a contradição, os vácuos. Empreende-se uma busca sempre semelhante a um salto no escuro. A vida só se faz (e só vale a pena) assim.

PS.não é difícil falar de uma doença, quando se está contaminado – em maior ou menor grau – por ela. O único remédio é o risco, a fuga da zona de segurança

PS2. a maior parte de nós, vez ou outra, flerta ou encampa a cinefilia das lentes mentais. Isso é normal porque sinal dos tempos. Anormal é transformar isso em fortaleza. Coisa de reacionário.

Zero à direita

Posted in 1 by franvogner on 28/12/2009

2009 acaba. Enquanto muita gente faz alarde com relação ao governo do PT em razão dos escândalos promovidos, geridos e negociados pela “banda da situação”, acho triste que boa parte da crítica a essas coisas tem tonalidades e posturas bastante claras de rancor já antigo ou de um anti-esquerdismo anacrônico e bufão. Pior assim, porque o governo Lula acaba não tendo crítica decente, já que a extrema esquerda acaba sendo mais uma postura imutável (independente de quem está no poder), do que uma crítica efetiva ao estado das coisas. No final das contas a equação resulta mesmo é em zero à direita. Centro?  “Assim, porque és morno, e não és frio nem quente, vomitar-te-ei da minha boca.” (Apocalipse 3:16)

Deus não é brasileiro e ainda vai destruir esse país com fogo do céu e terremoto.