No Olho do Furacão

Atuação e dignidade dos medíocres

Posted in 1 by franvogner on 29/01/2010

Novembro/2007

Atores e atrizes em grande parte são péssimos. Até os bons atores quando são péssimos, o são com brio, como nenhum outro tipo de artista sabe ser em seus respectivos ofícios. Um exemplo é o Lázaro Ramos, outro é Antônio Fagundes. Duas Vidas coloca no mesmo nível Lázaro Ramos (que fez Madame Satã) e Suzana Vieira (que faz, sempre fez e sempre fará, Suzana Vieira, uma péssima atriz na vida real). Assim como a teledramaturgia da Globo em geral, coloca no mesmo nível Daniel Oliveira e Marjorie Estiano, a menina da voz adestrada.

Portanto, Roberto Bomtempo, apesar de ser o mandíbula mais ordinário desse país, me sai em A Maldição de Sampa-KU como uma variação trágica de Sérginho Malandro. O que o coloca em um nível digno já que não dá pra exigir nada mais dele do que ser tão e somente péssimo.

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Carlos Gerbase é genial. Entitular seu primeiro longa de “Tolerância” foi uma das coisas honestas que já vi, porque só com muita Tolerância (com T maiúsculo) o espectador consegue chegar ao fim do filme.
Um filme como Tolerância é natural de um mundo em que nunca existiu Fritz Lang. Uma coisa básica (e moral) como a distância entre o personagem e a câmera – ou mesmo o lugar da câmera no ambiente – é uma preocupação ausente no cinema dele. É o estilo patada de elefante “bota a cÂmera ali e faz uma imagem assim (não um plano) do Bomtempo carcando a mulher dele”. Tanto faz em cima da pedra, quanto pendurado no teto ou atrás da estante.
O Gerbase é tão democrático que ele deve deixar o fotógrafo, os roteiristas, o diretor de arte e, principalmente, o compositor da trilha sonora e o atorrrr Roberto Bomtempo fazerem o que bem entenderem. Isso que eu chamo de trabalho de equipe. Só o montador é neutro.

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Reeditando: CINEMA NACIONAL e etc

Posted in 1 by franvogner on 28/01/2010

Novembro/2007

Outro dia em um ônibus indo pra Saúde, um homem de pé, pronto pra descer e fedendo a mijo vê uma mulher de bunda enorme, dá uma apertadinha no pau por cima da calça e fala “vadia gostosa enfiar..” – o resto da frase eu não entendi – e dá uma puxada no fôlego. Dois garotos observam a cena com certa repulsa e e achando um pouco engraçado. Um deles diz em voz alta “CINEMA NACIONAL”.

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Há uns meses, em Santa Tereza(no Rio), eu, a Flávia e uma amiga andávamos próximos a umas lojas de artesanato e passa um casal ao nosso lado. O cara cantava a música tema de “Ó Paí Ó” e emenda uma declaração de princípios: quando eu vejo um filme legal desses, ai é que eu quero fazer um longa mesmo”.

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Em um bar na rua Augusta um baixinho careca dá aulas de cultura para seus amigos que ouvem admirados. Esbraveja que “Caetano e Gal são uns merdas…o Chico é até bom”. Desliguei. Mais a frente ele solta “os filmes do Carlos Reichenbach são ruins, no início ele imitava mal Godard”. Depois, mais contido vejo ele argumentando com o dedo em riste, “não gosto de Roxy Music, é new romantic”.
Encontro minha amiga depois na frente do mesmo bar e ela me diz que tenho de conhecer um amigo dela, “ele é fera em cinema, vocês irão se dar super bem”, justifica. Ela me aponta ele dentro bar. É o baixinho careca. Eu simulo uma dor no olho esquerdo e caio fora.

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Festa na casa de um amigo na Vila Madalena. Como ele, a maioria é de estudantes de história, sociologia e afins. Começam a detonar o Caetano “ele foi um bom artista, mas deveria calar a boca, só fala merda” e alguns afagavam Chico Buarque arbitariamente. “Se Chico fala mal do Lula ele é coerente, se fala bem é compreensível“… “Ele continua tão bom com seus sambas quanto antes”, dizem alguns, “credo em cruz, o Caetano gravou Peninha”, comentam outros.
A conversa vira pra Nelson Pereira do Santos e seu Raízes do Brasil. Dizem todos que o filme é ruim, concordo, mas serve como material pedagógico para a garotada, discordo.
Um cara agressivo de gadeia na cabeça polemiza “quem é Nelson Pereira, o que ele fez? ele nunca foi tudo isso que vocês dizem. Tá bom fez Vidas Secas que é obra-prima, mas fez mais o que? Nada.”. Eu interfiro: “mas o melhor filme dele é Rio Zona Norte, uma maravilha que…”. O Gadeiudo me interrompe, bem agressivo, quase gritando: “que maravilha o que, tá louco um filminho de samba e ai? Narrativa convencional”. Não dava pra justificar. O Gadeiúdo era implacável como um paladino em favor da beleza e da política. Acho que meu amigo ficou meio constrangido com o arranca rabo. Essas coisas me derrubam. Fui pra casa ABSOLUTAMENTE deprimido, igual a uma vez que uma trotskista straight edge me chamou pro confronto porque segundo o que eu dizia, ela deduziu que Paulo Freire, o pedagogo, era uma espécie de autoritário inimigo dos trabalhadores.
Outro dia vi o Gadeiúdo compando um livro do Eduardo Galeano. Ele quase me cumprimentou. Tive certa compaixão dele.

Posted in 1 by franvogner on 28/01/2010

Do perfil do Watanabe no Orkut. O comentário é, mais precisamente, sobre curtas:

“renego todos os filmes: publicitários, humanistas, funcionais, transgressores de butique, aqueles que usam não-atores pobres domesticados por uma preparação de elenco terceirizada, aqueles que possuem executivos assinando a direção, curtas-portfólio, curtas-antonioni, curtas-tarantino, nuevos brasileños lucrecianos-martenianos, multiplots de roteirista-deus, dinamarqueses, cools, indies, que tentem contribuir para a “indústria do cinema brasileiro”, que tenham mais renda do que qualidades artísticas, que circulem por festivais mais do que façam circular o sangue, que se ajoelhem diante do espectador, que forcem amizade com os jovens pululando “signos da contemporaneidade”, que achem bonito ter 5 minutos de créditos iniciais em um curta; publicitários.”

Curtas na Cinemateca

Posted in 1 by franvogner on 27/01/2010

Recado do Fernando Watanabe:

Pessoal,

é com grande prazer que panfleto aqui a sessão do CURTA CINEMATECA ESPECIAL desta sexta-feira, 29/01, 20h30, na Cinemateca.
Poderão ver pela primeira e última vez o DANÇAS, curta-metragem mais solapado de 2009: pela falta de categoria segundo alguns, pela presença de originalidade segundo outros.
Para tirar sua conclusão, compareça!
Ele está muito bem acompanhado por outros 3 filmes que integram a sessão, cujas informações estão no link:
Pra terminar, como as pessoas que brincam de curadoria festivalesca não escrevem, só tenho aqui para divulgar as reações positivas ao DANÇAS, abaixo:
http://olhoslivres.zip.net/arch2009-10-25_2009-10-31.html (post do dia 26/10/2009)
http://www.filmespolvo.com.br/site/eventos/cobertura/695
http://oesportefavoritodoshomens.wordpress.com/2009/07/17/dancas-recusado-pelo-festival-de-curtas-sp/

nos vemos lá!

Fernando Watanabe

Reedição: A semana santa de Nicholas Ray

Posted in 1 by franvogner on 27/01/2010

Abril/2007

Comentário: existe uma porção de idéias “tati-bitati” que me incomodam nesse post. Mas de qualquer modo, o que está escrito, está escrito.

As cores, a luz, a profundidade e o volume, como Rafael e Boticceli

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“Não é sangue, é vermelho”

Mais do que um jargão gracioso, nostálgico e moribundo, dizer hoje que o cinema (ainda) é Nicholas Ray é resignificar uma arte pelo seu essencial. Luz, espaço e, com respeito à palavra, verdade.

Não uma verdade universal do cinema, mas as verdades de Ray estão bem evidentes em Rei dos Reis. Tudo é radical: a humanidade e a paixão do protagonista, a ofensiva social, a explosão da violência, a inevitabilidade trágica e o o papel central das cores. O olho de pintor de Ray: a luz como constraste criador de volume. O olho de arquiteto (o que ele era de formação): geometria e centralidade do plano, tendo como pressuposto…a luz.

Bem, sei lá…esse é o melhor filme que trata do personagem Jesus Cristo , que me perdoem Pasolini e Rossellini com seus belíssimos trabalhos. Pra quem ainda duvida que Jesus é mais legal que Ulisses e que acha um disparate colocar Ray ao lado de Rafael, Rimbaud…

Reeditando

Posted in 1 by franvogner on 26/01/2010

Pra esse blog não ficar parado novamente tive uma idéia nada brilhante. Reeditar textos meus do antigo blog que aind aprimam por alguma graça.

Reedição 1: O intelecto reaça/março 2007

Li no blog do Zanin o texto dele sobre a entrevista com Antônio Cícero na Folha de São Paulo e faço coro com ele no “senão” ao discurso do poeta e filósofo. Só que acho hilárias as reações dos leitores nos comments. O discurso deles simplesmente confirma as afirmações de Antônio Cícero sobre a dialética caolha da nossa inteligentzia progressista. Toda a discussão vai simplesmente pro ralo economicista, com jargões, raciocínios e teorias que, apesar de não estarem longe de uma leitura exemplar de algumas questões, tranquilizam muitos dos nossos inteligentes pela lógica do “lado certo”. Acusam o Cícero de neoliberal, filhinho de papai que estudou nos States, citam Marx à torto e à direito (“a filosofia passa pela barriga”), e falam que ele leu Fukuyama porque chamou a esquerda de “economicista”. Mas toda a discussão só parece confirmar as críticas de Antônio Cícero à moral e ao pensamento de esquerda no país, mesmo que não justifiquem sua postura blasé relativizando problemas históricos na fórmula chique do “mínimo de condições dignas”. Me desculpe Antônio Cícero, mas isso é peidar na água.

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Com o perdão da grosseria, mas Renato Janine Ribeiro “rasgou o cu” escrevendo aquele artigo em ocasião da morte do garoto João Hélio. Eu até entendo o modo como ele tentou mapear as emoções extremadas frente àquele momento, só que errou ao fazer disso “crítica à razão”, porque, ele negando ou não, isso está evidente no papel do jornal. Mais um ponto pro Antônio Cícero.
Mas por outro lado, creio que outros formadores de opinião deveriam se conter um pouco com relação ao texto do Janine Ribeiro e entender o tipo de crise que ele expõe nesse debate. Como ele mesmo disse no Mais! desse domingo, ele não fez um texto que propunha algo, ações ou pedia maior rigidez nas leis e pena de morte. Ele fez um ensaio desajeitado sobre seu impulso e desejos de vingança ante ao horror. Mas como o mundo não é dos desajeitados, ele terá de dar conta do papel constrangedor a que se prestou, porque afinal de contas, intelectual também é gente.

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Um exercício interessante seria examinar com acuidade os discursos provocadores de gente tida como conservadora e, a despeito de algumas descabeladas posturas, em alguns pontos eles colocam em cheque muitas das convicções “progressistas” que não raramente tomam forma de demagogia.

O professor e filósofo Luiz Felipe Pondé é um reacionário clássico, aquele com ótima articulação verbal, bem longe de nossos senadores acacianos com síndrome de Ruy Barbosa. Em razão dessas leituras de fim de semana (da entrevista do Antônio Cícero ao Mais!) cheguei a uma entrevista (Chega de Modernidade) com o professor Pondé. Pois bem. Todo seu arsenal intelectual se serve de críticas à modernidade e elogios à Idade Média. A coisa toda é uma retomada da intelectualidade conservadora religiosa no debate público, apesar de que o senhor Pondé (agnóstico) só se serve da defesa desses princípios como ataque à modernidade.
Só creio que sua crítica é mais válida na circustância do que no cerne. Se formos ao cerne, teremos de lidar com essa tentativa de” reação”, na sua convicção de que as vanguardas são uma merda e de que o problema da humanidade é de ordem estritamente moral. Ai o cara mostra a que realmente veio e é onde faz valer a essência de suas declarações que, mais do que desvelar a hipocrisia de certo discurso moderno esclarecido, tem mesmo a intenção de girar a roda da História pra trás.

Identificando um farsante

Posted in 1 by franvogner on 21/01/2010

Não sou eu quem identifica, mas o Jacques Rivette. Ele não tem subterfúgios. A lucidez do pensamento e a frontalidade (um termo que uso recorrentemente, mas não vejo outro possível) dos seus filmes são francas. Não há joguinho nem igrejinha e ele é um dos poucos cineastas que ainda se colocam perante o cinema que é feito hoje, além de se referir constantemente ao seu legado (Renoir, Lang), pois sabe que um não é possível sem o outro.

Não há trapaça. Nesse sentido é exatamente o oposto de Lars Von Trier, um espertinho.

“Em Breaking the Waves e Os Idiotas há momentos fortes, a última sequência dOs Idiotas é muito bonita, mas o que não funciona em qualquer um dos filmes é, justamente, o filme. Para mim, é tipicamente o exemplo de um cineasta dotado, esperto, inteligente, mas que o é demasiado. Um pouco como Polanski, mas ainda mais retorcido.”

“Sucede que Dreyer acreditava em Deus. Digo isto com muitas aspas: se ele acreditava ou não acreditava estou-me nas tintas, mas os seus filmes acreditavam por ele, enquanto Lars Von Trier é, sem dúvida muito bom católico, muito crente e tudo isso, irá direitinho para o Céu, é o que lhe desejo, mas os seus filmes não acreditam no Céu nem por um segundo.”

“Não há mais nada! Ele sabe tudo ao pormenor: não tem segredo nenhum, segredo nenhum, o infeliz! Está tudo na receita. aliás, é por isso que funciona tão bem com os críticos e os espectadores: está tudo na receita, o que não é uma novidade, foi sempre assim, é a lei do teatro acadêmico do século XIX…”

“TUDO ESTÁ NA RECEITA”

Trechos da entrevista à Hélène Frappart

In la Lettre du Cinéma, 10 e 11

Publicado em português na Catálogo O Segredo atrás do Segredo, editado pela Cinemateca Portuguesa

Tradução: Luis Miguel Oliveira

Poema sobre a neurose

Posted in 1 by franvogner on 18/01/2010

A ver

Posted in 1 by franvogner on 15/01/2010

Blog do Felipe Medeiros. Coisas interessantes organizadas e escritas por um alienígena do planeta Zumpa.

http://cantinhodoocio.blogspot.com/

Retrato do artista sempre jovem

Posted in 1 by franvogner on 12/01/2010

http://www.ina.fr/art-et-culture/cinema/video/I00006879/eric-rohmer-et-les-acteurs-de-perceval-le-gallois-a-propos-du-texte.fr.html

Lamento a morte de Eric Rohmer porque ele é um dos cinco cineastas de cabeceira e lidar com a idéia de que não teremos mais filmes dele é uma coisa estranha, porém, perfeitamente normal. Mas não há muito o que se lamentar: ele viveu bastante, teve uma carreira brilhante, criou um micro-sistema de produção contínua de filmes (o seu Les Films Du Losange), não envelheceu como artista e, aparentemente, fez os filmes que queria. Se a morte é inevitável a vida foi generosa com ele em um mundo (o do cinema) em que alguns dos heróis morrem cedo demais (Vigo), outros relativamente cedo (Truffaut, Glauber), com dificuldades pra filmar (Sganzerla, Welles) ou simplesmente deslocados (Ray, Hitchcock).

Seus filmes estão ai e, enquanto durar o mundo, serão eternos. A morte dele não torna o cinema mais chato, mas confirma (como diz o título do livro do Caetano) que “o mundo não é chato”.

Obrigado.

ps. Retrato do artista sempre jovem

ps2. O mundo não é chato

ps3. O mundo não é chato 2

Ps3. Le Gout de La Beauté

Ps4. A vida segue