No Olho do Furacão

Posted in Sem categoria by franvogner on 13/04/2011

Em Tropa de Elite, principalmente no primeiro, há uma montagem bastante descarada que tenta organizar um caos a partir de retalhos. O montador é “eficiente”.

Já nos filmes de Daniel Filho, o problema não está na montagem, mas na decupagem que parece não saber ao certo qual é o seu objeto. O filme poderia ter sido dirigido por fax, telefone ou e-mail. A montagem prima pela eficiência de se contar uma história e ponto final.

Assim como o senhor Martin Scorsese nos últimos filmes parece não querer abrir mão de nada que tenha filmado. Onipotente e onisciente, a montagem é habilidosa. E só.

É a vulgaridade e o efeito é em nós semelhante ao da labirintite

É a celeridade do tempo que deve ser eficiente pois “não há tempo a perder”.

Se o cinema por um lado é  junto com as máquinas de deslocamento (trêm, avião, carro) e de produção  a lógica de tempo da modernidade industrial em ação,  por outro lado nos seus grandes momentos conspira contra essa lógica da funcionalidade do tempo que o capital determina no trabalho e na arte (ou seja, na vida).  O cinema nos torna observadores e críticos do tempo, pois  revela a inevitabilidade da finitude das coisas.

Exemplos atuais? Santos Dumont pré-cineasta, de Carlos Adriano, que é um filme de montagem e a reflexão mais fascinante (e fascinada), dura e amarga sobre o tempo. É um filme de exceção.

Já os filmes citados mais acima simplesmente não tem um interesse de CENA, não sabem fazer distinção entre plano, composição e enquadramento, não conseguem resolver seus problemas  na montagem, pois seus equívocos fundamentais são de decupagem. Primam pela eficiência em nos vender uma idéia e neles não vemos a metamorfose do tempo, talvez o grande segredo de toda mise-en-scène.

Enfim, é também a vitória da imagem sobre o plano, como diria Pedro Costa.

Ai você vai a um curso de cinema e o professor te dá aula de montagem, como um processo “estanque” de todos os outros. Por isso não me surpreeende que muitos desses professores vêem o cinema americano como, pejorativamente, o cinema da eficiência e o clássico como uma modalidade (???) de eficiência narrativa. E só.

Falar de montagem como um aspecto estanque do processo não dá pé. Com raras excessões (Godard, Welles, Eisenstein, Sganzerla e alguns outros), discursos sobre montagem – geram aberrações, como esse açougueiro chamado Daniel Rezende. Aliás, a aberração é exatamente ele, mas a figura de montador que foi construída aqui no Brasil tendo ele como referência. Mas não é só no Brasil, isso é geral.

Pra Godard, Welles, Eisenstein, Glauber, Sganzerla, Hawks, Rohmer, Carpenter, Shyamalan, Hou, Gray, Bressane entre outros, montagem está implicada num processo de PENSAMENTO, não é uma etapa (a última) de fabricação.

Se a montagem (em algumas cenas) e a persistência na duração do tempo (em outras cenas) são problemas colocados por cineastas que pensam seus filmes como “corpo orgânicos”, uma obra-prima como Eu, eu mesmo e Irene, dos irmãos Farrelly consegue fazer da montagem e do plano (e sua duração) procedimentos que visam uma só coisa: a transfiguração de suas imagens. Portanto, ver a cena do personagem/herói de Jim Carrey (esse gênio), Charlie, se transformando no vilão Hank em um só plano, e ver a montagem do pedido de casamento não diferem como resultado, só como procedimento.

ps. Jim Carrey é, mesmo nos piores filmes, um corpo que por si só é uma metamorfose ambulante e constante, que sofre justamente por ser ilimitado, imperfeito, patético e trágico. Peter e Bobby Farrelly são seus grandes diretores, como um dia Hawks foi para Grant e Tashlin para Lewis. Carrey é alma e corpo ao mesmo tempo (a alma é o corpo) e, mais do que herdeiro Jerry Lewis, ele na verdade é a evolução natural de Cary Grant, influenciado por Chevy Chase. É a antítese radical dessa caricatura de grande ator “Inside Actors” que é Leonardo DiCaprio que vive de imitar o que Robert deNiro foi um dia. Aliás, DeNiro hoje está muito mais próximo, no bom sentido, de Carrey do que de DiCaprio.

ps2. abaixo imagens de Eu, eu mesmo e Irene que dá a ver tudo o que foi problematizado aqui.

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Uma resposta

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  1. Bruno said, on 14/04/2011 at 11:41 am

    Daniel Rezende foi chamado para montar Tree of Life. Tire suas conclusões.


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