No Olho do Furacão

Alguns textos

Posted in Sem categoria by franvogner on 16/06/2011

Como é evidente, eu me afastei da revista Cinética há um tempo e tenho usado este blog como trincheira.

Porém, saiu hoje um texto meu que já está pronto há bastante tempo e foi feito a partir de reflexões sobre dois filmes que vi na Mostra de Tiradentes, onde participei de dois debates este ano.

É uma edição repleta de textos (que não li ainda) e é a primeira depois do afastamento de Eduardo Valente da editoria, deixando tudo a cargo de Fábio Andrade.

 

Nanni Moretti

Posted in Sem categoria by franvogner on 06/06/2011

Nanni Moretti tem uma integridade rara que não precisa prestar contas a quem quer que seja. Ele compra as brigas certas (as brigas do seu tempo), sem aquele ranço decadente, ressentido ou meramente marketeiro que toma muitos “homens e mulheres” de esquerda pós-68. Seus filmes passam longe disso, ao passo que seu conterrâneo Bertolucci representa o que há de mais decadente nessa “herança progressista”. Eu e o amigo Bruno Andrade falávamos disso. Inclusive quem me lembrou do Bertolucci foi ele ao fazer uma analogia entre o cineasta e os derrotados de 68 (que acham que venceram depois que  a História os legitimou).

Enfim, os cineastas (mas também pensadores, escritores e outros sujeitos) mais interessantes tem em uma solidão lúcida a sua potência crítica, por mais que vez ou outra pareçam anacrônicos, desconfiados, e em certos casos, alucinados. Cléber Eduardo disse na entrevista à Filme Cultura – citando Agamben – que prefere se sentir um pouco defasado com relação ao contemporâneo, pois esse recuo é necessário para entender as coisas de seu tempo. Essa é uma postura importante para que se possa construir um olhar crítico. Fora isso, o risco é o reacionarismo puro e simples de um lado e a banalidade de outro. Qual banalidade? Berdiaev responde: “ A liberação compreendida como um alívio de todo o fardo da vida, como obtenção do contentamento, engendra inevitavelmente a vitória da banalidade, pois dela resulta um abandono da profundidade e  da originalidade, em favor do aburguesamento”.

Bem avesso a essa banalidade, Moretti fez filmes como por exemplo, O quarto do filho. Filme sobre o luto, aliás, é sobre o abismo incurável do luto. Não é sobre sua superação , mas sobre a convivência com este. É a tentativa de colocar ordem à vida, apesar de saber que a morte do filho não é coisa que se cure. Não se dissimula o trágico e a angústia. Não se contenta com a mentira, mesmo que ela seja bonitinha e criativa.

Caro Diário, por exemplo, é um tratado que versa sobre a vulgaridade de alguns fetiches modernos: a vulgaridade do consumo, a vulgaridade das formas, a vulgaridade dos discursos políticos, a vulgaridade dos costumes. Ele tem esse recuo (como diz o Cléber) perante as coisas, forma de conquistar a lucidez necessária para desvaler o absurdo e o banal. Desse modo, o turismo, o blá blá blá dos filmes politizados, o culto às celebridades, o mercado dos diagnósticos médicos, tudo isso é visto com estranhamento e é importante dizer: sem cinismo.

Moretti não é desses artistas  “sensação do momento”, tanto que parte da valorização de seu último filme Habemus Papam na imprensa passa por dizer que ele resgata em certo sentido a “comédia italiana”. Ou seja: no anacrônico.  Não vi o filme, mas não consigo acreditar que o valor está ai, pois esse “valor” (a comédia italiana)está presente em boa parte de seus filmes, e geralmente ele tem muito mais a dizer (e a mostrar). Pois é…a discrição tem seu preço.

Bem, Nanni Moretti não é nunca foi marketeiro, nem como polemista, nem como artista. Sua intervenção no debate público (inimigo número 1 de Berlusconi) e seus filmes são  íntegros demais para falar mais alto do que precisa. É essa a “justa medida” (e não a  “medida justa”)de Moretti. Ele não é menos violento e menos demolidor por causa disso. Pelo contrário: ele atinge o nervo das coisas com golpes precisos.

…………………….

Essa aversão (como a de Moretti) ao marketing da forma e das idéias é o que cria as fissuras necessárias no debate contemporâneo. Bem, o marketing é provavelmente o fundamento político atual, seja à esquerda ou à direita; seja no mercado de “autor” do cinema contemporâneo e na busca desesperada de “novas idéias e formas” no pensamento e na estética; seja nas polêmicas engendradas em nível ético e moral e na disseminação de um policiamento do que se fala, de como se fala e de como se comporta.  Nisso os reacionários bufam cada vez mais e os humanistas agem como cínicos, pois a obsessão pelo politicamente correto é comemorado como “festa da democracia”.

trailer do último

Sobre a sessão Vitrine e seus filmes

Posted in Sem categoria by franvogner on 04/06/2011

Morro do céu, de Gustavo Spolidoro

Eu soube meio por cima dessa tal “Sessão Vitrine” que pretende exibir filmes brasileiros de alguma repercussão em festivais.

O cardápio é atrativo, não porque só haja filmes bons, mas porque existe nesse grupo alguns trabalhos que possuem trabalhos estéticos muito interessantes e seria bom se eles encontrassem público para além dos freqüentadores de festivais.

Entre os títulos, gosto muito de Estrada para Yhtaca, de Luiz Pretti/Ricardo Pretti/Pedro Diógenes/Guto Parente, de Chantal Akerman de cá, de Gustavo Beck (achava que Beck assina a direção com o Leo Luiz, porém vi no site que não), Morro do céu, de Gustavo Spolidoro e Um lugar ao sol, de Cristiano Mascaro. Não vi Estrada real da cachaça, de Pedro Urano.

A próxima leva da Vitrine filmes me interessa (bem) menos: Avenida Brasília Formosa, A Casa de Sandro Pacific. Os outros (como Favela on blast) eu não assisti. Pacific, de Marcelo Pedroso, especificamente, não dá certo e é vítima da maior chantagem teórica dos últimos tempos. Há um texto de Francisco Bosco nesse blog (abaixo) que joga bastante luz sobre o tipo de equívoco que orienta a discussão sobre o Pacific. Pretendo voltar a  Pacific outra hora.

Morro do Céu e Um Lugar ao Sol vi só uma vez e me pareceram bem fortes. Mas quero rever, porque as condições em que os vi não foram as melhores. Por outro lado, Estrada para Ythaca e Chantal Akerman de cá foram vistos duas vezes cada um.

Estrada para Ythacaé admirável. Existe nele um cruzamento entre algumas tendências em voga no cinema contemporâneo e a herança do cinema moderno de outras décadas, porém sem vampirismo. A  relação entre uma certa tradição moderna e o cinema atual  é dinâmica. Temos um luto, a “amizade como modo de vida” e um trajeto sem chegada, porém repleto de reinícios.

Entretanto não uso como argumento de valor o fato de que o trabalho da “gang of four” de Ythaca dialoga com  “tendências do cinema contemporâneo”, ou de transparecer “cultura cinematográfica”, de ter  “afeto como gesto fundamental”, de ver “importância no processo de criação” e etc.  Isso tudo poder ser importante no desejo  de cinema dos diretores e podem ser dados que nos ajudem a compreender Ythaca um pouco mais, porém esses argumento (bonitos até) não determinam nada no resultado estético não só deste filme, mas de qualquer um.  O que principalmente chama a atenção em Estrada para Ythaca é a imaginação. Esse pequeno – e não mensurável – detalhe é o único sopro de vida que qualquer filme pode ter. Sem esse “sopro” qualquer obra é só argila molhada e mais nada.  Só acho que a certa altura do filme em que é dado aos personagens-diretores a escolha entre dois caminhos,  escolheram o  errado. O “outro caminho” me parece mais revelador do espírito do filme.

Os quatro diretores realizaram ano passado Os Monstros. É um filme diferente de Ythaca e depois da sua projeção eu pensei ter gostado um pouco menos dele do que do anterior. Mas cresceu na memória. Em Os Monstros  os desafios são outros e no fim das contas me parece mais franco como auto-retrato. É uma pequena crônica sobre uma comunidade masculina. É também, como o anterior, sobre personagens que começam com um tipo de derrota que a vida lhes infringe. O filme também está  longe da insipidez imaginativa. Por isso é a imaginação, não o processo, o sistema de produção, o dispositivo, os predicados existenciais, o refinamento da cultura cinematográfica, que conta . Aliás, contam SIM, mas como matéria, não como resultado.

Chantal Akerman de cá ganhou um prêmio de “melhor dispositivo” no último Cine Esquemanovo.  Se eu fosse o diretor não gostaria de ter recebido este prêmio.  Ficaria ofendido. Sei que não foi má fé do júri, mas pô, “melhor dispositivo”? Em termos estéticos e artistícos (e em técnicos) isso não quer dizer nada. Simples assim.

Chantal Akerman de cá , de fato, possui um dispositivo que de início chama a atenção. É um berro conceitual que pode aborrecer alguns. Mas acontece que o filme de Beck tem uma organicidade que aos poucos tira o “protagonismo” desse dispositivo e faz com que ele seja um filme que funciona como um corpo vivo. Não é possível dissecá-lo para análise. Ele é um filme de plano e este “único plano” tem uma transformação interna e externa gradual. Não é uma “imagem” (ou seja: que tem valor sobretudo em sua plástica), mas um plano com suas implicações. Isso é importante dizer, pois tudo que se articula ali tem como questão essa frontalidade nua. Existe uma personagem, um modo de olhá-la, de implicá-la e algumas limitações nessa abordagem. Essas limitações são interessantes.  Como fazer um retrato e não uma reportagem? Ai cabe uma pergunta-desdobramento: como fazer desse retrato algo ativo (um movimento) e não uma coisa veneravelmente formal? Portanto o “dispositivo” por si só não diz nada. Ele é parte do método.

A figura do entrevistador oculto Leonardo Luiz Ferreira é indispensável. Não consigo imaginar o filme sem ele. Suas perguntas são diretas, pessoais e objetivas. Isso também – não só o “dispositivo”, ou juntamente com o dispositivo – imprime essa parcimônica elegante (e frutífera) do filme. Este é o anti-A Casa de Sandro. A Casa de Sandro, o trabalho anterior de Beck, era vítima do seu dispositivo.  Se A Casa de Sandro fosse um quadro, nele eu veria mais a moldura do que a pintura.

No mais, em Chantal Akerman de cá, um milagre rosselliniano de transfiguração e conversão: Chantal Akerman (que é uma chata) se sente à vontade com as perguntas de Leo Luiz e em frente a câmera de Gustavo Beck. Assim, a personagem (que é chata e desinteressante) fica interessante e (só) um pouquinho menos chata.   Piadas a parte, Chantal Akerman de cá é divertido e instigante, diferente dos filmes da diretora que, em absoluto, não me fazem a cabeça. Exceção notável: Jeanne Dielman. Exceção parcial: La Captive.