No Olho do Furacão

Sobre a sessão Vitrine e seus filmes

Posted in Sem categoria by franvogner on 04/06/2011

Morro do céu, de Gustavo Spolidoro

Eu soube meio por cima dessa tal “Sessão Vitrine” que pretende exibir filmes brasileiros de alguma repercussão em festivais.

O cardápio é atrativo, não porque só haja filmes bons, mas porque existe nesse grupo alguns trabalhos que possuem trabalhos estéticos muito interessantes e seria bom se eles encontrassem público para além dos freqüentadores de festivais.

Entre os títulos, gosto muito de Estrada para Yhtaca, de Luiz Pretti/Ricardo Pretti/Pedro Diógenes/Guto Parente, de Chantal Akerman de cá, de Gustavo Beck (achava que Beck assina a direção com o Leo Luiz, porém vi no site que não), Morro do céu, de Gustavo Spolidoro e Um lugar ao sol, de Cristiano Mascaro. Não vi Estrada real da cachaça, de Pedro Urano.

A próxima leva da Vitrine filmes me interessa (bem) menos: Avenida Brasília Formosa, A Casa de Sandro Pacific. Os outros (como Favela on blast) eu não assisti. Pacific, de Marcelo Pedroso, especificamente, não dá certo e é vítima da maior chantagem teórica dos últimos tempos. Há um texto de Francisco Bosco nesse blog (abaixo) que joga bastante luz sobre o tipo de equívoco que orienta a discussão sobre o Pacific. Pretendo voltar a  Pacific outra hora.

Morro do Céu e Um Lugar ao Sol vi só uma vez e me pareceram bem fortes. Mas quero rever, porque as condições em que os vi não foram as melhores. Por outro lado, Estrada para Ythaca e Chantal Akerman de cá foram vistos duas vezes cada um.

Estrada para Ythacaé admirável. Existe nele um cruzamento entre algumas tendências em voga no cinema contemporâneo e a herança do cinema moderno de outras décadas, porém sem vampirismo. A  relação entre uma certa tradição moderna e o cinema atual  é dinâmica. Temos um luto, a “amizade como modo de vida” e um trajeto sem chegada, porém repleto de reinícios.

Entretanto não uso como argumento de valor o fato de que o trabalho da “gang of four” de Ythaca dialoga com  “tendências do cinema contemporâneo”, ou de transparecer “cultura cinematográfica”, de ter  “afeto como gesto fundamental”, de ver “importância no processo de criação” e etc.  Isso tudo poder ser importante no desejo  de cinema dos diretores e podem ser dados que nos ajudem a compreender Ythaca um pouco mais, porém esses argumento (bonitos até) não determinam nada no resultado estético não só deste filme, mas de qualquer um.  O que principalmente chama a atenção em Estrada para Ythaca é a imaginação. Esse pequeno – e não mensurável – detalhe é o único sopro de vida que qualquer filme pode ter. Sem esse “sopro” qualquer obra é só argila molhada e mais nada.  Só acho que a certa altura do filme em que é dado aos personagens-diretores a escolha entre dois caminhos,  escolheram o  errado. O “outro caminho” me parece mais revelador do espírito do filme.

Os quatro diretores realizaram ano passado Os Monstros. É um filme diferente de Ythaca e depois da sua projeção eu pensei ter gostado um pouco menos dele do que do anterior. Mas cresceu na memória. Em Os Monstros  os desafios são outros e no fim das contas me parece mais franco como auto-retrato. É uma pequena crônica sobre uma comunidade masculina. É também, como o anterior, sobre personagens que começam com um tipo de derrota que a vida lhes infringe. O filme também está  longe da insipidez imaginativa. Por isso é a imaginação, não o processo, o sistema de produção, o dispositivo, os predicados existenciais, o refinamento da cultura cinematográfica, que conta . Aliás, contam SIM, mas como matéria, não como resultado.

Chantal Akerman de cá ganhou um prêmio de “melhor dispositivo” no último Cine Esquemanovo.  Se eu fosse o diretor não gostaria de ter recebido este prêmio.  Ficaria ofendido. Sei que não foi má fé do júri, mas pô, “melhor dispositivo”? Em termos estéticos e artistícos (e em técnicos) isso não quer dizer nada. Simples assim.

Chantal Akerman de cá , de fato, possui um dispositivo que de início chama a atenção. É um berro conceitual que pode aborrecer alguns. Mas acontece que o filme de Beck tem uma organicidade que aos poucos tira o “protagonismo” desse dispositivo e faz com que ele seja um filme que funciona como um corpo vivo. Não é possível dissecá-lo para análise. Ele é um filme de plano e este “único plano” tem uma transformação interna e externa gradual. Não é uma “imagem” (ou seja: que tem valor sobretudo em sua plástica), mas um plano com suas implicações. Isso é importante dizer, pois tudo que se articula ali tem como questão essa frontalidade nua. Existe uma personagem, um modo de olhá-la, de implicá-la e algumas limitações nessa abordagem. Essas limitações são interessantes.  Como fazer um retrato e não uma reportagem? Ai cabe uma pergunta-desdobramento: como fazer desse retrato algo ativo (um movimento) e não uma coisa veneravelmente formal? Portanto o “dispositivo” por si só não diz nada. Ele é parte do método.

A figura do entrevistador oculto Leonardo Luiz Ferreira é indispensável. Não consigo imaginar o filme sem ele. Suas perguntas são diretas, pessoais e objetivas. Isso também – não só o “dispositivo”, ou juntamente com o dispositivo – imprime essa parcimônica elegante (e frutífera) do filme. Este é o anti-A Casa de Sandro. A Casa de Sandro, o trabalho anterior de Beck, era vítima do seu dispositivo.  Se A Casa de Sandro fosse um quadro, nele eu veria mais a moldura do que a pintura.

No mais, em Chantal Akerman de cá, um milagre rosselliniano de transfiguração e conversão: Chantal Akerman (que é uma chata) se sente à vontade com as perguntas de Leo Luiz e em frente a câmera de Gustavo Beck. Assim, a personagem (que é chata e desinteressante) fica interessante e (só) um pouquinho menos chata.   Piadas a parte, Chantal Akerman de cá é divertido e instigante, diferente dos filmes da diretora que, em absoluto, não me fazem a cabeça. Exceção notável: Jeanne Dielman. Exceção parcial: La Captive.

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4 Respostas

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  1. Leonardo Luiz Ferreira said, on 08/06/2011 at 3:37 am

    Caro Francis,
    Obrigado por escrever sobre o meu doc, Chantal Akerman, de cá. Vou lhe responder mais ou menos o que falei para o Sergio Alpendre: eu assino o filme com o Gustavo, até porque estive presente em todas etapas e tomamos as decisões conjuntas. A título de diferenciação de duas instâncias assinamos realização e entrevista que formam “um filme de”. Por favor, se puder coloque sobre isso no post.
    Um abraço,
    Leo Luiz

  2. Rudá Lemos said, on 16/06/2011 at 11:22 am

    Mas o Francisco Bosco gostou de Pacific: http://sergyovitro.blogspot.com/2010/09/francisco-bosco-compulsoes.html

    • franvogner said, on 17/06/2011 at 3:16 am

      Pois é Rudá…nem todo mundo é perfeito.
      O fato de ter colocado um texto dele aqui – e gostar da lógica do que escreveu – não quer dizer que ambos gostamos de carne de porco, de azul ou que tenhamos preferência por mulher loira.
      Por outro lado a questão pra mim não é gostar ou não gostar de Pacific, mas valorizar o filme por meio de uma desastrada retórica teórica. A minha impressão é que se privilegia uma “pauta teórica” que contempla coisas que pouco (ou nada) tem a ver com cinema. Isso alguns que gostam de Pacific fazem. Outros (como o crítico Fábio Andrade) usam uma argumentação estética, fazem esforço de entender o filme como arte.
      Eu não gosto do filme. Acho equivocado. É um pout-porri de imagens colocadas em uma ordem. Gosto de duas coisas (duas imagens de quando os turistas descem à praia) por motivos diferentes: uma que é o pai tentando filmar as crianças e elas o sabotam um pouco irritadas, e outra uma intervenção bem consciente do diretor, que é uma imagem de um mestre de cerimônias que ele desloca e coloca depois de uma palhaçada sem graça de um turista. Achei ambas muito engraçadas. O das crianças tem força como registro, a intervenção, é uma maldadezinha quase vulgar, mas muito espirituosa.


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