No Olho do Furacão

Nanni Moretti

Posted in Sem categoria by franvogner on 06/06/2011

Nanni Moretti tem uma integridade rara que não precisa prestar contas a quem quer que seja. Ele compra as brigas certas (as brigas do seu tempo), sem aquele ranço decadente, ressentido ou meramente marketeiro que toma muitos “homens e mulheres” de esquerda pós-68. Seus filmes passam longe disso, ao passo que seu conterrâneo Bertolucci representa o que há de mais decadente nessa “herança progressista”. Eu e o amigo Bruno Andrade falávamos disso. Inclusive quem me lembrou do Bertolucci foi ele ao fazer uma analogia entre o cineasta e os derrotados de 68 (que acham que venceram depois que  a História os legitimou).

Enfim, os cineastas (mas também pensadores, escritores e outros sujeitos) mais interessantes tem em uma solidão lúcida a sua potência crítica, por mais que vez ou outra pareçam anacrônicos, desconfiados, e em certos casos, alucinados. Cléber Eduardo disse na entrevista à Filme Cultura – citando Agamben – que prefere se sentir um pouco defasado com relação ao contemporâneo, pois esse recuo é necessário para entender as coisas de seu tempo. Essa é uma postura importante para que se possa construir um olhar crítico. Fora isso, o risco é o reacionarismo puro e simples de um lado e a banalidade de outro. Qual banalidade? Berdiaev responde: “ A liberação compreendida como um alívio de todo o fardo da vida, como obtenção do contentamento, engendra inevitavelmente a vitória da banalidade, pois dela resulta um abandono da profundidade e  da originalidade, em favor do aburguesamento”.

Bem avesso a essa banalidade, Moretti fez filmes como por exemplo, O quarto do filho. Filme sobre o luto, aliás, é sobre o abismo incurável do luto. Não é sobre sua superação , mas sobre a convivência com este. É a tentativa de colocar ordem à vida, apesar de saber que a morte do filho não é coisa que se cure. Não se dissimula o trágico e a angústia. Não se contenta com a mentira, mesmo que ela seja bonitinha e criativa.

Caro Diário, por exemplo, é um tratado que versa sobre a vulgaridade de alguns fetiches modernos: a vulgaridade do consumo, a vulgaridade das formas, a vulgaridade dos discursos políticos, a vulgaridade dos costumes. Ele tem esse recuo (como diz o Cléber) perante as coisas, forma de conquistar a lucidez necessária para desvaler o absurdo e o banal. Desse modo, o turismo, o blá blá blá dos filmes politizados, o culto às celebridades, o mercado dos diagnósticos médicos, tudo isso é visto com estranhamento e é importante dizer: sem cinismo.

Moretti não é desses artistas  “sensação do momento”, tanto que parte da valorização de seu último filme Habemus Papam na imprensa passa por dizer que ele resgata em certo sentido a “comédia italiana”. Ou seja: no anacrônico.  Não vi o filme, mas não consigo acreditar que o valor está ai, pois esse “valor” (a comédia italiana)está presente em boa parte de seus filmes, e geralmente ele tem muito mais a dizer (e a mostrar). Pois é…a discrição tem seu preço.

Bem, Nanni Moretti não é nunca foi marketeiro, nem como polemista, nem como artista. Sua intervenção no debate público (inimigo número 1 de Berlusconi) e seus filmes são  íntegros demais para falar mais alto do que precisa. É essa a “justa medida” (e não a  “medida justa”)de Moretti. Ele não é menos violento e menos demolidor por causa disso. Pelo contrário: ele atinge o nervo das coisas com golpes precisos.

…………………….

Essa aversão (como a de Moretti) ao marketing da forma e das idéias é o que cria as fissuras necessárias no debate contemporâneo. Bem, o marketing é provavelmente o fundamento político atual, seja à esquerda ou à direita; seja no mercado de “autor” do cinema contemporâneo e na busca desesperada de “novas idéias e formas” no pensamento e na estética; seja nas polêmicas engendradas em nível ético e moral e na disseminação de um policiamento do que se fala, de como se fala e de como se comporta.  Nisso os reacionários bufam cada vez mais e os humanistas agem como cínicos, pois a obsessão pelo politicamente correto é comemorado como “festa da democracia”.

trailer do último

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9 Respostas

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  1. Bruno said, on 06/06/2011 at 3:28 pm

    Faltou essa: http://www.youtube.com/watch?v=FBuJnP7zY-k

    Provavelmente a melhor aula de análise do discurso da história, cortesia não de um francês (parisiense ainda por cima, comme il faut), mas de um italiano. Devia ser matéria obrigatória em todas as faculdades (leia-se: todas) poluídas por logorréia midiática e/ou sofismo e cinismo pós-estruturalista: tapa na cara e fim de papo.

    Pena que não tem no youtube a cena do adeus ao século XX, a melhor do filme.

  2. Jordan Bruno said, on 07/06/2011 at 7:24 am

    O quarto do filho é o anti-The Big C … essa integridade que vc fala no inicio do texto é fundamental no Caos Calmo … que ele não dirigiu ….

  3. Fabio said, on 11/06/2011 at 9:14 pm

    Excelentes texto e blog. Nao pare de escrever, por favor. Mas falando no Bruno Andrade, ele nao volta com O Signo do Dragão?

    Abços

  4. Marcelo MIRANDA said, on 28/06/2011 at 11:09 pm

    Francis, me pergunto onde entra, nessa discussão de italianos, o cinema ainda ativo do Marco Bellochio, em perspectiva ao que fazem Bertolucci e Moretti.

    • franvogner said, on 29/06/2011 at 4:05 am

      Pois é…acho ele formidável. Porém a perspectiva dele é outra. Não sei necessariamente onde “colocá-lo”. O que você acha?

  5. Marcelo Miranda said, on 30/06/2011 at 3:58 am

    Penso como você, então, ou talvez pra mais. Eu o acho acima inclusive do Moretti, sob vários aspectos (e sem desmerecer esse último). Sim, a perspectiva é outra, de um jeito pungente e duro (e nada sutil – e quantos cineastas conseguem lidar com a não-sutileza como ele?). E é político até a alma, em forma, conteúdo e o que mais precisar ser. Talvez o último bastião do cinema italiano moderno. Quando morrer Bellocchio, Moretti deve subir de posto. 😉

    • franvogner said, on 30/06/2011 at 11:21 am

      Ainda que Bellocchio tenha feito um dos meus filmes prediletos em toda história (A Hora da religião), coisas superlativas (Punhos Fechados, Olhos na Boca) e filmes ótimos (Bom dia noite, A China está próxima, Vincere) fez um trabalho HORRÍVEL: Diabo no corpo. Ele é irregular e fez muita coisa que não vi, não posso dizer…
      Agora, Nanni Moretti nunca fez um filme ruim na vida. NUNCA. É mais discreto, tem um tom mais baixo e não tenha o “gostinho” pela decadência.


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