No Olho do Furacão

Foco: James Gray

Posted in Sem categoria by franvogner on 18/07/2011

Depois de algumas estações está ai http://www.focorevistadecinema.com.br/

Este é o terceiro número da Foco e o primeiro com um cineasta em atividade. Depois de Samuel Fuller (número 1),  Jean-Claude Guiguet e John Flynn (número 2), é bastante natural que a escolha do “contemporâneo” contemplasse James Gray. Uma coisa importante a dizer sobre o “contemporâneo”: para os editores escolher James Gray não é só uma opção por entrar no debate das coisas atuais, já que está claro que as edições anteriores (a partir de cineastas que fizeram sua obra em outros tempos) também propunham um debate com este tempo (anos 2000). O que guiou a escolha dos editores é que este cineasta tem uma obra tão forte e singular que vale a pena se debruçar sobre ela.  Se em alguma medida falar de um diretor atuante em nossa época é colocar em crise alguns predicados da produção atual (e da critica atual) tanto melhor assim. Mas essa escolha de Gray não é desvinculada das escolhas de Fuller ou Guiguet: é um desdobramento.

No número 1 as escolhas de Fuller e da homenagem ao crítico João Bénard da Costa (falecido um pouco antes da edição 1 da Foco) foram paradigmáticas. Sabemos que Fuller foi o cineasta que nos anos 50 e 60 tirou a crítica da ingenuidade formalista e política. O negócio era o seguinte: dizia-se que seus filmes  eram formalmente vulgares e politicamente fascistas. Os filmes de Fuller enfureciam os críticos comunistas e eram esnobados pelos críticos de direita. Frente a isso alguns críticos mais apaixonados e curiosos (Domarchi, Rohmer, Godard, Truffaut e sobretudo Moullet) elevaram o nível da discussão estética e política ao saírem em defesa dos filmes de Fuller. Daí surgiu o a máxima “a moral é uma questão de travelling”, do Moullet. Essa foi, definitivamente, a entrada do cinema na discussão estética e política madura.

Uma homenagem ao crítico e diretor da Cinemateca Portuguesa João Bénard da Costa foi também um modo de vislumbrar, mais do que uma identificação de “linha crítica”, um desejo de cinema: um cinema vivo, parte de uma cultura atenta ao seu tempo, porém calcada na apreciação artística e na tentativa de entender as fissuras que isso causa no mundo.

Se as escolhas de Fuller e Bénard da Costa foram bastante simbólicas de um posicionamento foi porque se fez também como uma tentativa de “limpar o campo” nas discussões sobre cinema  e ao mesmo tempo se filiar a uma tradição crítica de modo bem claro.

Na pauta seguinte, pensar sobre Guiguet e Flynn é sequência e uma ampliação dessa “opção crítica”: trazer à luz um cineasta-crítico desconhecido do público e jogado para o debaixo do tapete no cinema moderno europeu (Guiguet), justamente por fazer um certo tipo de filme (de dramaturgia, romanesco) em uma época em que isso era visto com desconfiança, e discutir a obra de um grande cineasta (Flynn) ignorado solenemente por ser um diretor “barato” de filmes de ação, sendo alguns deles vistos como…reacionários (sobretudo Rolling Thunder).

As escolhas não foram ditadas só pela provocação, mas pelo desejo de inscrever na discussão sobre cinema cineastas  de personalidade grave sobre os quais vale a pena falar. É um trabalho que trata a discussão cinefílica como crítica de arte, para além de tratar a arte, como diria Jamenson, como “evento”.

Gray, portanto, é uma escolha natural, reforçada pela célebre entrevista (pela primeira vez em português)  “o antigo e o novo” de Comolli, Biette e Bomtemps com Eric Rohmer em 1965, pouco depois de sua demissão da editoria dos Cahiers du Cinéma no final de 1963.

Se há uma redação oficial, ela é composta pelos seus editores Bruno Andrade, Felipe Medeiros e Matheus Cartaxo.  Os outros colaboradores formam uma redação flutuante, que colabora vez sim, vez não. Algo fundamental a  se notar: os colaboradores fazem parte de um grupo transnacional que, em sua maioria, escrevem seus textos originalmente para a Foco. Da Itália Toni D’Angela, que é  editor do La Furia Umana e escreveu livros sobre John Ford e Raoul Walsh;  da França Vincent Jourdan e Christophe Fouchet; da Espanha Jesús Cortés e veterano Miguel Mariás; de Portugal Luís Miguel Oliveira, João Palhares e José Oliveira. É uma comunidade crítica e cinéfila transnacional e provavelmente o único encontro crítico (em um trabalho conjunto efetivo) entre Portugal e Brasil, sempre e estranhamente tão distantes na História do cinema.

Há também reedições e muitas traduções para o português  de textos clássicos, um trabalho que nossas editoras locais nunca se preocuparam em fazer e organizar e que a contracampo, o blog dicionários de cinema se lançam  há um bom tempo.

Abaixo, alguns frames de uma das cenas mais belas de The Yards, de James Gray.



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2 Respostas

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  1. K. Lincoln said, on 18/07/2011 at 1:27 am

    Vixe maria, quanto coisa boa nessa edição: o gigante James Gray, Eles Vivem, Corrida Sem Fim (se bem que achei o artigo do Paul Vecchiali um tanto mixurucão, considerando a grandeza do filme), Olhos da Serpente e a entrevista que sempre quis ler do Rohmer etc. Valeu, é texto pra um mês de leitura hehe

  2. Pedro Henrique Gomes said, on 23/07/2011 at 4:35 am

    A edição está boa, Francis. Muito fortemente amplificada pela entrevista com o Rohmer. O teu artigo, A Anatomia do Drama (é isso, se não me engano), também me pareceu pertinente. Vamos lendo.

    Abs!


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