No Olho do Furacão

Um deprimido ataque burocrático

Posted in Sem categoria by franvogner on 06/12/2011

Há uns meses fui convidado para a 5a Semana de Cinema da Universidade Federal de Santa Catarina. Fui, debati e voltei.

Nesses dias li um artigo na revista Punctum que me atacou pessoalmente a partir da minha participação nesse debate. O tema era “crítica de cinema”.

Mandei um email ao autor do artigo – o professor Luiz Felipe Soares – e não obtive resposta. Eu não ia me manifestar sobre isso, mas como a pichação foi pessoal acho que a questão necessita de uma breve réplica.

*****************

Pra um debate existir é preciso haver interlocutores e divergência. Debate não é chá de comadres e nem sempre prima pela cordialidade. Como muitas vezes é um embate de idéias, o debate pode ser violento, o que não quer dizer que não seja civilizado. Essas não são regras, mas condições, senão não há debate: há palestra, aula, fala, sermão, performance retórica, depoimento, prestação de contas e discurso. Não um debate. Em um debate há esclarecimento, convergências, mas há também ruídos, pontos de partida divergentes que talvez não cheguem a uma conclusão, entretanto, um atrito dessa natureza sempre revela posições, sutilezas e limites que não viriam à tona de outro modo.

Escrevo isso porque parece que o professor Luiz Felipe Soares, da Universidade Federal de Santa Catarina, não sabe o que é um debate, pois se soubesse talvez tivesse me poupado da análise que fez do meu comportamento e da minha pessoa no debate sobre crítica na Semana de Cinema da Universidade Federal de Catarina. A análise, ou melhor, o juízo que ele fez sobre mim na revista Punctum foi possível porque ele estava presente e ouviu minha fala. Não replicou, não me provocou, não se colocou em… debate. Segundo o professor, eu fui arrogante, superficial, moralista, mal educado, discuti a crítica a partir de questões tolas e agi como se eu fosse “o grande esperado da Semana de Cinema”. Segundo ele, eu ofendi não só os alunos de cinema da UFSC, mas os alunos de cinema em geral e só fui convidado porque alguns alunos da universidade indicaram meu nome e disseram que eu era colaborador de importantes revistas de cinema.

Pois é. Não fui pra fazer amigos e nem inimigos, fui a um debate sobre crítica de cinema, esperando que, inclusive, as divergências aparecessem (o que é normal) e que pudessem ser discutidas. O debate aconteceu? Sim, mas em outro tom. Foi uma conversa estimulante (ao menos pra mim) entre eu, José Geraldo Couto, André Zacchi, o professor Jair Tadeu da Fonseca (que mediou o debate) e alguns alunos que fizeram colocações, provocações e perguntas. Gostei muito. Mas Luiz Felipe Soares ficou em silêncio. Talvez para ele não valesse a pena expor ali seus incômodos e suas idéias. E como ele torna evidente em seu texto, talvez o meu nível (sim, da minha pessoa e das minhas idéias) fosse baixo. No texto o professor pontuou as divergências, condenou, desqualificou, mas não foi a fundo. Disse que nada entendi da proposta de crítica de André Zacchi, o que é verdade. Bem, se incorri no erro, um debate não seria o momento ideal para o erro e o esclarecimento viessem a acontecer? Ele disse também que eu assumi não ter preparado nada. Preparar eu preparei, só não tinha um discurso fechado e programático sobre crítica de cinema. Mas eu argumentei, me coloquei e busquei discutir uma série de pontos sobre a questão da crítica. Não sou crítico de método muito ortodoxo e mesmo assim, tenho um trabalho e é por causa disso que os alunos dele me indicaram.

Eu gostaria de saber realmente a posição dele com relação o que coloquei sobre crítica de cinema. O texto dele não diz. Mas enfim, depois do julgamento e da sentença ele partiu para o que “realmente interessava” que era o debate do Eduardo Coutinho, a quem ele criticou a falta de educação, de tato e a pouca (ou nenhuma) generosidade. Ou seja: mais uma “impressão” ressentida de um escriba que supostamente fala em nome de uma instituição e de um curso que, na visão dele, foram desprestigiados, e fica a fazer análise de conduta.

Como não conheci o tal professor pessoalmente, não posso falar dele, mas posso falar do texto, do modo como ele se colocou em relação ao debate e às falas que ele considerou de mau tom.

Ora, essa postura ressentida e oficialesca é estratégia bem conhecida. O texto revela uma postura institucional. Só que essa postura institucional, que se diga, não é da UFSC (que tem o respeitado professor Mauro Pommer como diretor e um corpo docente com muita gente boa), mas de um professor que busca representá-la, que destila veneno, ressentimento e antipatia e se coloca no fim das contas como um patrulheiro de condutas e posicionamentos. A patrulha é por conta própria e a suposta superioridade é patologia individual.

A estratégia do covarde, sempre, é falar em nome da instituição, se esconder atrás de uma postura corporativista, o que, se em alguns casos revela muito da cultura institucional (a cultura institucional em geral, não da universidade em questão), em outros casos (como este) revela mais como essa pessoa entende seu papel dentro dela e se utiliza desse papel para expurgar problemas de ordem pessoal. Sim, de ordem pessoal, pois o texto só lamenta e critica a maneira como debatedores se comportaram e se colocaram em relação a algumas idéias. Bispos, padres, advogados, professores, secretários, inspetores, gerentes e pelegos exercem pequenas taras de poder falando em nome da instituição, se escondendo atrás de comunicados, boletins e artigos, e fazem isso aspirando a valores e sentimentos nobres. É a hipocrisia pura e simples. O que dizer de um indivíduo que testemunhou presencialmente debates que o incomodaram – e lhe incitaram repulsa e desprezo – e mesmo assim ficou de biquinho calado e se omitiu? Omissão é e sempre foi impostura intelectual, covardia e fraqueza moral. Ele disse que proferi moralismos, mas quem repreendeu comportamentos foi ele em um texto nervoso, complexado escrito posteriormente na segurança de sua toca.

Deslegitimação e desqualificação do outro é a estratégia do medíocre. O confronto intelectual é imprescindível porque é uma das maneiras mais interessantes de intervenção no debate das idéias. Ele não fez isso, preferiu o ressentimento (e não entendi exatamente o motivo disso) ao argumento. Fez um relatório disciplinar, de viés inquisitório. Burocracia e coação puras.